Tendência que une Rui Costa e Ciro faz restrições ao “Lula Livre”, critica pauta identitária e flerta com conservadorismo “nos costumes”

Para além das críticas ao PT, as entrevistas de Ciro Gomes e seu aliado, o governador petista da Bahia, Rui Costa, respectivamente à BBC Brasil e à Veja, apontam para um novo fenômeno na cena política brasileira: a “esquerda conservadora”. Parece paradoxal, e é; trata-se de uma tendência do progressismo caracterizada pelo anti-identitarismo e pela adesão a itens da pauta conservadora nos costumes, com o intuito pragmático de conquistar os setores das classes B, C e D que se inclinaram ao bolsonarismo por influência das igrejas neopentecostais.

Une Ciro e Rui o discurso de que o PT deveria deixar de lado a bandeira “Lula Livre” para formar uma frente “por direitos”. Na entrevista à Veja em que defende que o PT deveria ter apoiado Ciro e não lançado Fernando Haddad em 2018, o governador baiano disse que o “Lula Livre” não deve ser condicionante à formação de alianças, embora afirme que o partido “não pode e nem deve abrir mão” dessa bandeira. “Não acho que esse é o ponto que deve ser usado pelo PT para condicionar qualquer diálogo com as oposições para formar uma frente”, afirmou.

A esquerda nunca engoliu as célebres declarações de Rui Costa após o Brasil inteiro ficar estarrecido com a execução, pela Polícia Militar, de 12 adolescentes negros do bairro do Cabula, em Salvador, em 2015. “É como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol. Depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”, comparou.

Foi uma figura de linguagem absurdamente ruim, aplicada num momento infeliz. É inegável que a metáfora de quatro anos atrás imediatamente se conecta, hoje em dia, à imagem do governador de extrema direita, Wilson Witzel, comemorando a execução do sequestrador de ônibus na ponte Rio-Niterói, em agosto, como se fosse final de Copa do Mundo. Com o “detalhe” de que Rui é considerado de esquerda e Witzel, de extrema direita.

O inquérito sobre as mortes dos jovens instaurado pela Secretaria de Segurança Pública confirmou a versão oficial de que houve confronto e que os policiais agiram em legítima defesa; um Inquérito Policial Militar resultou em idêntica conclusão. O Ministério Público, porém, sustenta que houve execução. Os nove policiais envolvidos na ação chegaram a ser absolvidos por uma juíza do TJ da Bahia em julho daquele ano, mas o MP conseguiu anular o julgamento.

Outro dia o colunista Levi Vasconcelos, do jornal A Tarde, deu a definição perfeita para o petista: “Rui é de esquerda e governa com um pé na direita; e Neto é de direita e governa com um pé na esquerda”. Rui Costa afagaria a direita com grandes obras enquanto, em termos de “costumes”, o prefeito ACM Neto seria mais “esquerda” que o governador. Justiça seja feita: há quem sustente, como Vasconcelos, que é justamente essa mistura que está fazendo a Bahia ir bem.

Já Ciro Gomes parece não ter superado a derrota, quase um ano depois da eleição de 2018, e segue atacando Lula e o PT em entrevistas e falas públicas. À BBC Brasil, Ciro mais uma vez disse que Lula “não é inocente” e, ao justificar por que não apoiou Haddad no segundo turno, disse que o petista “é uma fraude” num partido de ladrões. “Não sou obrigado a apoiar ladrão, não sou obrigado a apoiar quadrilha”, afirmou.

A guinada de Ciro à esdrúxula “esquerda conservadora” se faz evidente em seus recorrentes ataques ao “identitarismo” do PT, ou seja, à pauta civilizatória do partido em relação a gays, negros e LGBTs. Em novembro passado, o pedetista afirmou ser contrário à inserção de pautas das minorias nas políticas públicas. “Nosso povo é tolerante. Mas daí a você explorar essa tolerância com políticas públicas para afirmar um identitarismo de minorias que são mais próximas ao pensamento progressista, é falta de respeito”, disse.

Na entrevista que deu à BBC Brasil, Ciro disse com todas as letras que a pauta “identitária” não pode ser o foco das esquerdas, assim como tem reiterado seguidamente sua aversão ao “Lula Livre”. “O PT não entendeu nada do novo Brasil neopentecostal, evangélico e, como não tem proposta de esquerda, nenhuma, se refugia no identitarismo. Então tem uma imensa afinidade com as teses identitárias, como se a soma de interesses identitários desse um interesse nacional. Isso não existe.”

Ciro foi além e criticou o PT por ter lançado como candidata ao governo do Rio de Janeiro, em 2018, a filósofa Marcia Tiburi, que, segundo ele, faz “apologia do cu”.

“Quantos votos teve a candidata a governadora do Rio de Janeiro nas eleições passadas? Você tem ideia? Rio de Janeiro é a maior concentração de artista por metro quadrado, intelectuais, engenheiros, do Brasil. É a sede da Globo, da ABI, enfim, de tudo o que é progressista”, disse Ciro. “Sabe quantos porcento PT tirou lá? Dois por cento. Porque a Marcia Tiburi, que é uma figura respeitável, queridíssima e tal, faz apologia do cu na televisão. Eu tenho até vergonha de citar e isso não quer dizer que não haja uma grande interessante questão nesta tese da Marcia Tiburi, mas foi o que dominou o debate no Rio de Janeiro. Você quer uma governadora que faz apologia?”

Parecia Olavo de Carvalho, mas era Ciro. Na verdade, ele faltou com a verdade duplamente: a filósofa teve quase 6% dos votos, idêntico percentual do candidato do PDT, Pedro Fernandes, que apoiou o neofascista Wilson Witzel no segundo turno e acabou expulso do partido. Marcia Tiburi tampouco falou de “apologia do cu” na televisão e sim no festival literário curitibano Litercultura, em 2017, onde faz uma defesa intelectual e bem humorada do ânus. “O cu é das coisas mais laicas que há neste mundo. A gente tem que libertar o cu”, provocou.

Uma coisa é que Ciro, aos 61 anos, se choque com uma boutade sobre o ânus que remonta a Georges Bataille em a História do Olho, de 1928. Outra coisa é que, como um legítimo “fiscal de cu”, retrate como falta de estratégia o que foi um ato absolutamente corajoso do PT: lançar como candidata uma filósofa de pensamento livre, sem amarras, em tempos de obscurantismo.

O que Ciro propõe é covardia: que a esquerda esconda o que verdadeiramente pensa para seduzir os setores conservadores da sociedade. O PT já fez isso. Dilma Rousseff, que sempre foi favorável à descriminalização do aborto como política de saúde pública, recuou quando candidata, em 2010, para atender às chantagens do fundamentalismo religioso. E deu no que deu. Chega.

A esquerda não pode só pensar em ganhar a eleição. Temos um papel didático com as gerações futuras. Precisamos contribuir para conscientização da população para o que significa ser progressista; antirracista; contra a homofobia; feminista; pró- descriminalização do aborto e pró-descriminalização da maconha. Não podemos abrir mão de debater com a sociedade estes temas. Colocar a população para evoluir, não retroceder junto com ela. Ou agora teremos também que nos curvar à escola sem partido?

Como todo o resto, a “esquerda conservadora” não é uma jabuticaba, não é exclusiva do Brasil. Movimentos semelhantes contra a extrema direita têm encontrado espaço na Europa, optando por deixar em segundo plano as questões de gênero, raça e sexualidade: na Alemanha, o coletivo Aufstehen, e a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, são dois exemplos. No ano passado, a revista The Economist identificou a esquerda que combina “economia estatal” com “conservadorismo cultural” como um fenômeno em ascensão.

Com a esquerda em toda parte atônita com o ressurgimento do fascismo, estas vozes clamam, como fazem Ciro e Rui em suas entrevistas, a “ouvir” o trabalhador, o “homem do povo”, que estaria “distanciado” da esquerda por ela estar “focada em excesso” no politicamente correto e no identitarismo. A líder do Aufstehen, Sahra Wagenknecht, já foi acusada de “racismo” e de “flertar com o populismo” por sua postura ambígua em relação aos imigrantes para agradar ao “cidadão comum”.

O que Ciro propõe é covardia: que a esquerda esconda o que verdadeiramente pensa para seduzir os setores conservadores da sociedade. O PT já fez isso, e deu no que deu. No curto prazo, ganhou eleições; no longo prazo, foi derrubado do poder e Lula foi preso

Não por acaso, tanto Ciro quanto Rui ou Wagenknecht reivindicam a pauta da segurança pública como uma causa de esquerda. Segundo o governador baiano lamentou à Veja, o PT “sempre se mostrou reticente” em relação ao tema. Em 2018, disse que foi “mal entendido” ao defender uma parceria para implantar a “metodologia e filosofia” dos colégios militares em escolas do interior baiano. Militantes do próprio partido o criticaram.

“Fazer concessões táticas à direita não é só uma política socialista ruim. Isso não funciona”, defende o cientista político Leandro Fischer em artigo na revista Jacobin, em 2017, em que previa o fracasso do coletivo alemão Aufstehen. O Brasil é prova disso: no curto prazo, o PT ganhou eleições cedendo estrategicamente à direita; no longo prazo, foi derrubado do poder e Lula, preso.

No mais, “esquerda conservadora” para mim soa como “liberal conservador”: uma contradição em termos. Algo como “ambientalista latifundiário” ou “vegano carnívoro”.

Via : socialistamorena