Um episódio ocorrido em Cajazeiras, no Alto Sertão da Paraíba, nas eleições municipais de 1972, entrou para o folclore político nacional e causou polêmica no programa do jornalista Flávio Cavalcanti, na Rede Tupi, de grande audiência em todo o país.

A aposta inusitada entre um porteiro de cinema e um proprietário de farmácia acerca do desfecho do pleito.  Concorreram a prefeito Antonio Quirino de Moura, pela Arena, que saiu vitorioso com 5.692 votos, e João Bosco Braga Barreto (MDB), que obteve 4.256 sufrágios, tendo o reforço de 1.185 votos de Acácio Braga Rolim, que se registrou por uma sublegenda emedebista.

A diferença, no cômputo geral, foi apertadíssima – os candidatos do MDB tiveram apenas 255 votos a menos do que Quirino, num total de 11.386 sufrágios apurados. Bosco Barreto, já falecido, que explodiu naquele ano como líder populista em Cajazeiras, revelou em depoimento ter a impressão de que a eleição lhe fora tomada, o que nunca se confirmou efetivamente.

No seu livro “Em Nome da Verdade – cartas para meu neto”, o jornalista Marcone Formiga, paraibano com raízes familiares em Cajazeiras, que se projetou na imprensa em João Pessoa e Brasília, sendo prestigiado colunista do “Correio Braziliense” por muito tempo, narra a história da curiosa aposta firmada na eleição de 72 e diz que a notícia lançou o repórter iniciante na mídia nacional como personagem central de uma polêmica que teria mobilizado o país inteiro.

Em meio à radicalização da disputa eleitoral, o farmacêutico conhecido por Haroldo travou uma discussão acalorada com Zé Pequeno, porteiro do Cine Cruzeiro, de um bairro na periferia de Cajazeiras, sobre o resultado das urnas. O relato textual de Formiga:

“Haroldo da Farmácia era um homem arrogante, que procurou ridicularizar o desafio proposto por Zé Pequeno:

– Apostar! O que você tem para apostar comigo?

– Vaca eu não tenho, mas ponho minha mulher, Maria, contra a vaca…Você aceita?

– Aceito!

É lógico que uma aposta absurda como essa não é formalizada em cartório. Mas nas cidades de interior prevalecia a lei do fio do bigode e da palavra empenhada diante de testemunhas. Abertas as urnas, Haroldo ganhou a inusitada aposta e resolveu cobrar a Zé Pequeno a entrega da mulher, Maria, que se recusava a atendê-lo. A confusão foi logo formada entre eles”.

Formiga, que trabalhava no “Correio da Paraíba”, preparou matéria para o jornal – a qual despertou o interesse do editor-chefe Barreto Neto, que também era correspondente do jornal “O Estado de S.Paulo”.

O assunto ganhou espaço no “Estadão” e em outros veículos do país inteiro, tornando-se um prato cheio para a produção do programa Flávio Cavalcanti, que explorava o filão das matérias sensacionalistas para ganhar audiência. No desdobramento da inusitada aposta, Marcone Formiga entrou no olho do furacão por causa de atrito com a produção do programa de Flávio Cavalcanti. Por absurda coincidência, segundo seu relato, em Cajazeiras existiam dois porteiros de cinema com o apelido Zé Pequeno, ambos casados com mulheres chamadas Maria.

Ocorre que o Zé Pequeno do Cine Éden, na mesma praça João Pessoa, era mais conhecido, até porque durante o dia trabalhava como bombeiro hidráulico. Um repórter desembarcou em voo fretado em Cajazeiras com a missão de levar Haroldo, Zé Pequeno e Maria para o Rio de Janeiro. E levou o Zé Pequeno do Cine Éden e a mulher para o Rio, em troca de uma boa quantia em dinheiro.

Indignado com a manipulação feita pela produção de Flávio Cavalcanti, Marcone Formiga foi até Cajazeiras para apurar a verdade e gravou entrevista com o Zé Pequeno verdadeiro, que confirmou com detalhes a aposta. Tanto o “Correio da Paraíba” como o “Estadão” publicaram estamparam matérias com título mais ou menos na mesma linha editorial: “Flávio Cavalcanti mente mais uma vez”.

Formiga foi levado pela produção de Flávio ao Rio para esclarecer os fatos, mas narra ter sido vítima de armação para desmoralizá-lo. Contrariando suas expectativas, ao retornar à Paraíba foi recebido “quase que como um herói”. E, ainda sobre o quiproquó, Formiga arrematou: “Não demorou muito para ocorrer um fato que atribuo à justiça divina: Flávio Cavalcanti foi afastado da televisão e seu programa acabou, por uma decisão dos generais em Brasília, que ele tanto cortejava, pois não concordavam mais com a baixaria que apresentava”.