Nordeste ficou com 3% dos novos benefícios do Bolsa Família. Sul e Sudeste ficaram com 75%. Ou o Governo Federal acredita que a pobreza na região mais pobre do Brasil acabou ou é vingança eleitoral.

Dentro do esquisito sistema de autocomplacência do Governo Federal, através do qual sempre se encontra uma justificativa para tudo, talvez a explicação para o Nordeste ter ficado com 3% dos novos benefícios do Bolsa Família, enquanto Sul e Sudeste acumularam 75%, seja porque essa região, que já foi tão sofrida, agora seja a mais rica do Brasil e não havíamos percebido.

Talvez não existam mais moradores de rua, nem famílias abaixo da linha da pobreza. Talvez a seca tenha acabado e a agricultura irrigada está alimentando as famílias nordestinas (com o sistema israelense de dessalinização que foi tão prometido).

Europeus devem estar visitando o Nordeste em massa e muitos estão até comprando imóveis para viver aqui quando se aposentarem. Dá pra imaginar até a propaganda do governo, com um casal de nordestinos, felizes, sorrindo no fim e dizendo: “obrigado, presidente Bolsonaro”.

Provavelmente somos nós que não temos boa vontade pra enxergar isso tudo e reconhecer a “grandeza do presidente”.

É, deve ser isso.

É de se imaginar também como seria o texto. Algo assim: “Graças às ações do Governo Federal, o Nordeste se libertou do Bolsa Família”.

Seria mentira, mas quem se importa com a verdade quando é preciso legitimar o discurso de que Bolsonaro está tentando melhorar o País enquanto os “inimigos” atrapalham?

A julgar pelos números apresentados, o Sul e o Sudeste precisam de 25 vezes mais recursos para a pobreza do que o Nordeste. Isso não é verdade. Juntos, Sul e Sudeste tem um PIB estimado em mais de R$ 3 bilhões. O PIB do Nordeste é algo em torno de R$ 750 milhões. 

Os nordestinos são quatro vezes mais pobres que os habitantes do Sul e Sudeste. Então é difícil não chegar à única conexão possível nesse caso: a eleitoral.

Bolsonaro perdeu a eleição de 2018 em toda a região Nordeste, os governadores são de esquerda e lhe fazem oposição, ele já teve atitudes e falas preconceituosas contra os nordestinos.

Desde 2018, mesmo antes de ele assumir, escuta-se até de aliados que o presidente é muito pequeno para o cargo.

Bolsonaro e equipe parecem se esforçar todo dia para garantir que isso seja verdade.