Irmã de Aécio é indiciada sob suspeita de crime relacionado a vazamentos na PF

Na casa de Andrea foram encontrados documentos internos da Polícia Federal, inclusive ligados a Operação Capitu.

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) – Seis pessoas foram indiciadas nesta quarta-feira (10) pela Polícia Federal em Minas Gerais sob suspeita de prática de crimes relacionados a vazamentos feitos por dois policiais a advogados e clientes sobre operações da própria PF. As investigações começaram em dezembro de 2018 e tiveram busca e apreensão em endereços dos indiciados em junho do ano passado.

Entre eles está a irmã do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), Andrea Neves, indiciada sob suspeita de obstrução de justiça, segundo a PF, por ter tido acesso a informações que impediram ou embaraçaram investigações relacionadas a organizações criminosas -algumas das operações envolviam o irmão- e se beneficiado delas.

Na casa de Andrea foram encontrados documentos internos da Polícia Federal, inclusive ligados a Operação Capitu, que apurou esquema de corrupção no Ministério da Agricultura durante o governo Dilma Rousseff (PT). Conhecida como estrategista da imagem e da carreira do irmão mais novo, Andrea foi presa em 2017 pela PF, denunciada por corrupção passiva com base na delação do empresário Joesley Batista, da JBS.

Por meio de nota, o advogado de Andrea Neves, Fábio Tofic, diz que a cliente nunca solicitou documentos ou teve qualquer contato com agente público e que os documentos encontrados na casa dela já haviam tido conteúdo divulgado pela imprensa.

“Sendo, portanto, estapafúrdia a hipótese de que poderiam ser usados para qualquer ato de obstrução de justiça. É preocupante que a autoridade policial faça uma ilação dessa gravidade sem apontar qualquer ato praticado por Andrea que pudesse ser interpretado como obstrução de justiça”, diz a nota.

Além dela, também foi indiciado por obstrução de justiça o empresário Pedro Lourenço. Caso denunciados, ele e Neves podem ter pena de até 10 anos em regime fechado. A Folha não localizou a defesa do empresário até a publicação.
Dois policiais federais, que vazaram as informações, e dois advogados, Carlos Arges e Ildeu da Cunha Pereira Sobrinho (morto em fevereiro) foram indiciados por violação de sigilo funcional, corrupção passiva e corrupção ativa, além de formação de organização criminosa por embaraçar investigações que envolviam organização criminosa. As penas previstas, caso sejam denunciados, podem chegar a 34 anos.

A defesa de Arges diz que tomou conhecimento do indiciamento pela imprensa e que não conhece ainda o teor do relatório da PF. “Oportunamente, poderemos nos posicionar”, diz mensagem enviada à reportagem pela advogada Vera Carla Silveira.
Segundo a PF, os policiais extraíam informações dos sistemas da PF, retiravam documentos sigilosos de operações em andamento em Minas Gerais e repassavam aos advogados. Estes ofereciam facilidades a seus clientes, obstruindo investigações. Eles ainda usariam a influência na PF como propaganda para conseguir novos clientes.
Além de prejudicar os trabalhos da polícia, o esquema também colocava em risco a segurança dos policiais envolvidos, segundo a corporação. Há indícios de que as práticas ocorriam há pelo menos cinco anos.

A investigação foi iniciada em dezembro de 2018, depois que documentos sigilosos e internos da PF foram encontrados na casa de um investigado da Operação Ross, que teve mandados em vários estados, incluindo endereços de Andrea e Aécio, em Minas e no Rio de Janeiro.

As apurações do inquérito concluído nesta quarta tiveram sete mandados de busca e apreensão, três de prisão preventiva e um de prisão temporária, quebra de sigilo telefônico, bancário, fiscal e telemático dos suspeitos. Além de operações já concluídas, como a Capitu, os vazamentos também estão ligados a operações ainda em curso.

Nos endereços dos advogados, a Polícia Federal encontrou também documentos relacionados a fraudes no Cruzeiro. Os documentos foram encaminhados à Polícia Civil de Minas Gerais, que investiga desvios de recursos e crimes de falsidade ideológica e falsificação de documentos. O Ministério Público de Minas Gerais também investiga o clube.

O inquérito foi encaminhado à 4ª Vara Federal de Minas Gerais e ao Ministério Público Federal, que decide sobre a denúncia contra os indiciados.
Provas levantadas na investigação também foram encaminhadas à Corregedoria Regional em Minas Gerais para que seja instaurado procedimento administrativo disciplinar sobre a atuação dos dois policiais federais.