Boca calada de grande parte da bancada paraibana, em fala de Bolsonaro atacando Nordeste

Jair Bolsonaro disse ontem uma frase que desnudou duplamente suas noções de Estado e de povo: “Daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão; tem que ter nada com esse cara”. No caso, “governadores de paraíba” são os governadores nordestinos, que, tanto quanto Bolsonaro está na Presidência, estão no cargo porque foram escolhidos pela maioria dos eleitores de cada estado nordestino.

“O do Maranhão” é uma referência, como você deve saber, a Flávio Dino, um dos governadores mais bem avaliados do país. As expressões usadas pelo presidente não são apenas manifestações de preconceito contra os nordestinos, mas atentam contra a necessária equidade de tratamento e respeito entre a União e os estados que a compõem.

O termo “União” não existe por acaso. Não é aceitável que um presidente conceda tratamento diferenciado a governadores de uma região por conta da ausência de alinhamento politico. Isso não é republicano e atenta contra os princípios da Federação. Mas, Bolsonaro foi além. Atacou o seu próprio povo (nordestino também é brasileiro, ou não?), tratando-o por “paraíba”, que é a maneira um tanto jocosa como muitos cariocas se referem aos nordestinos. Apesar de paulista, vive no Rio de Janeiro há mais de 40 anos.

Quem defende os nordestinos?

A reação da maioria dos governadores nordestinos foi imediata. Além de declarações individuais que rechaçaram, com mais ou menos ênfase, o que disse o presidente, seis governadores assinaram uma carta em que cobram do presidente sobre as orientações de retaliação a governos estaduais dadas a um dos seus ministros. Da bancada paraibana no Congresso, até agora apenas Gervásio Maia (PSB), Frei Anastácio (PT) e Veneziano Vital (PSB) se manifestaram criticando Jair Bolsonaro.

Julian Lemos não se sentiu ofendido. “Sabe quantas vezes alguém irá me ofender por me chamar de Paraíba ? Nunca ! Sou bem resolvido, adoro meu ‘oxente’. Nasci no melhor lugar do mundo, e ninguém é melhor do que eu, tenho auto estima, simples assim”, registrou em suas redes sociais o deputado federal do PSL.

Como é por demais sabido, Julian Lemos sempre agiu como um capacho do atual presidente. Quando Carlos Bolsonaro o chamou de “papagaio de pirata” do pai e aproveitador, desmentindo ser ele o “coordenador” do bolsonarismo no Nordeste, Lemos enfiou o rabo entre as pernas, engoliu em seco e deu o silêncio como resposta, atitude covarde bem ao estilo da que assumem hoje a maior parte da bancada paraibana, que se faz de morta para evitar criticar o presidente.

Como é por demais sabido, Julian Lemos sempre agiu como um capacho do atual presidente. Quando Carlos Bolsonaro o chamou de “papagaio de pirata” do pai e aproveitador, desmentindo ser ele o “coordenador” do bolsonarismo no Nordeste, Lemos enfiou o rabo entre as pernas, engoliu em seco e deu o silêncio como resposta, atitude covarde bem ao estilo da que assumem hoje a maior parte da bancada paraibana, que se faz de morta para evitar criticar o presidente.

Pedro Cunha Lima, Ruy Carneiro e Aguinaldo Ribeiro, por exemplo, que se empenharam com zelo quase religioso para aprovar a maléfica reforma da previdência na Câmara, agora calam diante de um ataque carregado de preconceito ao povo nordestino e paraibano apenas para não melindrar um presidente.

Talvez eles não se sintam mesmo atingidos porque esses ataques do presidente. Pessoas do centro-sul do país normalmente têm como alvo os mais pobres, os “mortos de fome”, os dependente do Bolsa Família, os retirantes, os pedreiros e porteiros do prédios de gente rica. Portanto, parte da elite nordestina se sente mais paulista e carioca do que “nordestina”. E isso se deve ao fato de que não se sentem parte do povo. Por isso, não se ofendem.

“Paraíba”

Quando termo “paraíba” é usado, sobretudo em um contexto de conflito, neles se misturam sentimentos de desprezo às pessoas provenientes do Nordeste e uma autoimagem de superioridade, o que pode muito bem ser confundido com uma manifestação próxima da xenofobia

Manifestações de ódio contra nordestinos se tornaram comuns nas redes sociais, principalmente após as últimas eleições presidenciais. A razão principal é que o eleitorado da região assegurou a candidatos de esquerda votações maciças, sempre beirando, e às vezes superando, os 70%.

Em 2014, foi o Nordeste que impediu a vitória de Aécio Neves, por exemplo. E se dependesse do eleitor nordestino, Bolsonaro não estaria sentado hoje na cadeira de presidente, de onde conduz a destruição da nação. Numa situação extremamente desfavorável para a esquerda, o Nordeste transformou-se em 2018 numa ilha eleitoral vermelha, cercado pelo voto bolsonarista. No segundo turno, Fernando Haddad, do PT, obteve aqui 69,7% dos votos na região.

O ódio bolsonarista ao Nordeste, portanto, tem razões políticas e raízes mais profundas, fundadas numa cultura de apartheid social, carregada de preconceitos elitistas. oriundas do preconceito arraigado em meio. sobretudo, às elites cariocas contra os “paraíbas” que ajudaram a construir a riqueza do estado, que durante um século e meio foi a capital do país. As palavras de Bolsonaro dizem muito sobre quem nos governa, mas também sobre que o elegeu e continua a apoiá-lo.

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